quarta-feira, 23 de novembro de 2011
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Encontro Marcado
ENCONTRO MARCADO
Andando pela calçada cheia de pedras e entulhos, Julieta não perdia a pose e desfilava, como numa passarela, com seu salto alto que torneava suas panturrilhas. Pedro, sentado em um banco do lado de fora de uma oficina de bicicleta, enquanto esperava o conserto da mesma, foi atraído pelo som da sandália de Julieta, subitamente virou o pescoço. Percebendo-a não se conteve e se virou completamente para observar e apreciar aquele desfile, e observou apenas em close aquelas bonitas pernas. Acompanhando toda a performance daquela bonita mulher sua visão foi interrompida, ela virara a esquina.
Exatamente três horas da tarde, Já em outra rua, que dava de frente para o mercado municipal da cidade, Julieta exageradamente pontilhava pela calçada, adentrava aquela rua como se fosse uma passarela. Ela sabia que seria a estrela naquele momento e não fazia por menos, encantava a todos que a olhavam. Destemida, colocando as mãos nos quadris seguia.
Em frente à calçada que Julieta dava seu Show, todos os carroceiros e caminhoneiros que ali se encontravam, cessavam o que faziam para ver Julieta passar. E comentavam ansiosamente.
--- Pronto, lá vem ela com seu galopar sensual!
Aquilo já tinha virado uma rotina, todos olhavam o relógio e exatamente naquela hora, às três horas da tarde, era dado inicio ao espetáculo. Ela não se contendo por ser o centro das atenções exacerbava sua feminilidade e deixa-os boquiabertos, com os pensamentos vagos e cheios de libido.
Enquanto andava, por impulso maquiavélico, Julieta deixou cair de sua bolsa uma chave amarrada por um cordão vermelho. Fazendo não perceber, mas louca para ver a reação dos homens que a observavam. Imediatamente foi surpreendida por um alvoroço, uma confusão, todos correram para apanhar aquela chave, que vislumbravam ser do coração de Julieta.
Jogando seu cabelo e olhando para traz ela vê um homem de baixa estatura, barrigudo, meio careca, pele branca e avermelhada do sol sorrindo expansivamente com a chave na mão. Para aquele homem, o mundo tinha parado, como se tivesse tapado os ouvidos para o mundo, ouvia apenas a canção sensual de Julieta, chamando-o. Sentia-se abduzido, enfeitiçado.
Parecendo mais uma cena em slow motion, o senhor dono de uma carroça de fretes aproximou daquela encantadora mulher com um olhar apaixonado, seu corpo tremia e a sudorese era descontrolada, mal conseguia segurar a chave. Do outro lado, os outros homens viam Julieta andando como se flutuasse, trajando de um vestido de tafetá, decotado, bem acentuado, evidenciando suas curvas. Não se contendo, espontaneamente eles fizeram uma Roda, pois a estrela estava a receber a sua chave que deixara cair.
Súbitos, todos imaginaram ser o entregador e naquele instante mil idéias pairavam por aquelas cabeças.
Como se acordassem de um sonho, observaram Julieta pegando a chave da mão daquele homem que estava parado e obcecado pelo seu olhar. Depois de um beijo no rosto, ele acordou euforicamente como se tivesse ganhado na loteria e saiu gritando.
--- Eu consegui, eu consegui...
Arrumando o contorno do batom, ela sacudiu os belos cabelos, depois colocou a mão direita da cintura e piscou o olho para eles como se tirasse uma fotografia. Virou a cabeça mexendo seus belos cabelos e saiu sem olhar para traz, deixando aqueles marmanjos prestes a vazar.
Pedro já saindo da oficina com sua monareta de cor vermelha, dobrou a esquina velozmente para tentar avistar Julieta. Mesmo de longe conhecendo aquele andar que não saia de sua cabeça, acelerou, passou pelas bancas de frutras, flores e verduras se esquivando, e de uma delas roubou-lhe uma flor para aquela deusa. Ainda um pouco distante vê novamente Julieta dobrar a esquina. Ainda muito apressado, dobrando a esquina que ela tinha virado, não vendo mais a sua amada, pasmo, ficou ali parado, com a flor na mão e o coração acelerado tentando ver se ela sairia de uma das casas. Esperando mais de duas horas, ainda sem êxito, mas confiante que ainda viria, Pedro cheira a flor, sorrir e sai em sua Monareta sem segurar no guidão, brincado com aquela flor:
--- Bem me quer, mal me quer...
Outro dia, duas da tarde, Julieta liga o som de seu quarto e se prepara toda para o momento de fama. Já andando pelas calçadas, apreça-se. Já bem próximo a sua passarela é surpreendida por Pedro com uma flor na mão, aquele menino entrega a flor e oferece uma carona. Já quase passando do horário de sua performance, Julieta aceita com uma condição, a de que ela fosse guiando. Não acreditando na proposta Pedro com cara de bobo aceita sem pestanejar. Montando na Monareta Julieta saiu carregando Pedro na garupa, deixando em êxtase, aquele cheiro de Julieta o deixava alucinado com o coração a pulsar intensamente.
Três horas da tarde, todos a postos a espera da celebridade, nada mais fariam a não ser ver Julieta passar. Vendo-a virar a esquina um deles gritam:
--- Olhem lá rapaziada, a deusa hoje passa de bicicleta.
--- Que pernas lindas!
Ela passou na bicicleta com um vestido mostrando suas pernas torneadas, com seus cabelos esvoaçantes e um perfume que mais parecia um néctar das deusas. Atrás viram um menino que se mostrava vitorioso e dono da situação. Percebendo a decepção deles Pedro insulto-os, os deixando enraivados. Sem entender do que tratava todos aqueles homens correram atrás de Julieta naquela monareta com Pedro insultando-os. Achando a cena engraçada ela pedalava rindo em ver todos aqueles homens a sua procura.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
LUA BRANCA - Letra Chiquinha Gonzaga - Interpretação Maria Betânia
Ouvir Maria Betânia Cantando Lua Branca de Chiquinha Gonzaga me remeteu ao bucolismo mórbido, recheado de lembranças felizes ou sofridas. Dessa forma, percebi que a poesia se instalou e a áurea poética penetrou nos meus poros sem pedir licença, invadindo todo o meu ser, provocando um sentimento nostálgico.
Deixar ser abduzido por esse oceano duplo de sensações é sentir o amor e saber que podemos ser felizes ou tristes. Porém amantes. Assim a música me embriagou. E embebido por tal sentimento amoroso arranquei de minhas entranhas estas palavras dramáticas, mas poéticas.
Deixar ser abduzido por esse oceano duplo de sensações é sentir o amor e saber que podemos ser felizes ou tristes. Porém amantes. Assim a música me embriagou. E embebido por tal sentimento amoroso arranquei de minhas entranhas estas palavras dramáticas, mas poéticas.
Quando o ser humano perde o controle sentimental,
O amor maltrata inconscientemente.
Aí é dado o marco inicial para uma batalha
A luz que resplandecia começa a ficar opaca
Sombreando a alma enfurecida, descontrolada
E dessa forma não se consegue enxergar nada mais
E o espelho está coberto pelas cinzas amorosas que se esvoaça
Num eixo só meu, calcificando minhas artérias e veias
De repente um despertar, uma luz.
E ao sentar no banco da penteadeira
E sentir o vento que sopra pela janela é possível
Mesmos sem alegria avistar uma luz que dar paz.
Ah! É o luar meu companheiro inseparável, amigo incondicional dos prantos.
sábado, 20 de agosto de 2011
TARDE DE DOMINGO (CONTO)
TARDE DE DOMINGO (CONTO)
Texto: Emerson Gomes
Tarde de domingo, Julião estava apenas debruçado sobre um tronco de cajueiro. Eram três horas da tarde, o céu estava nublado e já parecia quase anoitecer. Calmo, depois de um almoço farto, regado a uma boa cajuína natural, retirada daqueles belos cajus daquele cajueiro que escolhera naquele momento para apreciar a natureza, Julião pensava sobre sua existência. Talvez meio ocioso daquela comunidade pacata que morava, aquele momento era apenas seu, e servia para refletir e se permitir sonhar com mudanças para sua vida.
A conversa ainda prosseguia na cozinha, seus irmãos, sua mãe Terezinha e sua madrinha Edinete prosavam sobre o rumo da vida e relembravam os momentos felizes, as peripécias das crianças, os casamentos, as festas da padroeira na comunidade e se distraiam. As risadas chegavam até Julião que sem saber do que riam, mesmo de longe, compartilhava com uma gargalhada. Aquele momento que escolhera para pensar, também o leva a nostalgia, mas o deixava feliz, suas lembranças eram felizes. Pegando de um raio de bicicleta que usava para brincar de furar o chão, resolveu escrever na árvore uma frase. Mas antes, fez um grande círculo em volta do cajueiro e demarcou como “o espaço da felicidade”. Depois correu para o tronco e gravou uma frase que dizia:
- Aqui mora alguém muito feliz e mesmo assim já tenho saudades.
Jogou o raio fora do círculo, ajeitou sua roupa, como se preparasse para um espetáculo, pois algumas folhas de cajueiro nas mãos, fez de uma busca de côco um chapéu, de um galho seco um bengala e começou a cantar e dançar uma música que gostava muito quando sua mãe cantava para dormir. Bruscamente parou e se deitou no tronco, pressentiu algo e mesmo assim, não se deixou levar por aquela sensação. Deitado, ali, sentia o vento soprar e balançar seus cabelos ruivos lisos. Para sentir intensamente aquele vento, saiu subindo as galhadas do cajueiro até chegar à copa. Segurando em um galho, que o deixava apoiado, forçou o seu corpo a ficar com o tronco fora da copa. E dalí, abriu os braços, fechou os olhos para sentir o vento e pareceu viajar.
Já de olhos abertos via toda a comunidade, as crianças brincando e correndo atrás dos animais, as mulheres lavando roupa na beira do lago e ao longe observou os homens que pescavam; uns de tarrafa e outros em pequenas canoas, aquela imagem parecia mais um daqueles quadros naturalistas que as mulheres compram dos camelôs para enfeitar suas salas. De repente soprou um vento forte que quase o derrubava. Com medo, resolveu descer, enquanto descia, observou um ninho de rolinha, parou e ficou ali contemplando aquela estrutura, aquele emaranhado de gravetos, penas e folhas, desceu outro galho e se deparou com um cajú vermelhinho a sua frente, um pouco distante, teve a idéia de desafiá-lo e retirá-lo. Amedrontado, prevendo uma possível queda, resolveu quebrar um pequeno galho e jogou, acertou de primeira, o cajú caiu no círculo que o batizou de “o espaço da felicidade”. Desceu na carreira, apanhou o cajú, limpou-o no seu calção e pós no bolso. Com aquele cajú, presentearia sua madrinha Edinete. Um pouco cansado, deitou novamente no tronco e passou a observar aquela árvore tão robusta, verdinha e com muitos cajus amarelos e vermelhos dependurados.
Em meio as suas contemplações começou a observar o fluxo dos pássaros naquela árvore. Aquilo o deixou calmo e muito sonolento. Já quase adormecendo percebeu que era observado por um animal, que até o momento não lhe metia medo, e sem mais nem menos, certificou que naquele momento já parecia um conflito, um observando o outro. Parado, mexendo apenas os olhos, Julião não acreditava no que via e percebeu que aquele animal que o observava induzia uma comunicação, seus olhos diziam algo. Pensativo se aquilo era mesmo verdade tentou distrair o animal, tangendo. Sem êxito, amedrontou-se, aquele animal que carregava uma expressividade nunca antes vista imbuída de uma áurea ofuscante, adentrava “o círculo da felicidade” e aproximava querendo algo. Temido por uma situação possivelmente conflitante, seguiu bruscamente para uma galhada acima.
Meio envergonhado por ter causado tal constrangimento, o animal se retirou, pensativo sobre o medo que provocara em Julião. E refletiu sobre o distanciamento que o homem promovia sobe os demais animais. Dando as costas e saindo desconcertado, cabisbaixo e muito triste, fez com que Julião não entendesse o seu comportamento.
Sem entender a reação do animal, Julião, curioso em querer saber sobre aquela atitude tão racional daquele bicho, mesmo com medo, balançou as galhadas do cajueiro, queria chamar a atenção daquele animal que saia devagar, triste e cabisbaixo. Com o balançar dos galhos aquele animal tímido intensificava seu pensamento a respeito de Julião e caminhava rápido, agora com medo, talvez pudesse ser rechaçado, agredido, discriminado e seguia rumo ao seu destino.
Julião sem conseguir chamar a atenção do animal, desceu aceleradamente daquela árvore e gritou... Chamou-o descontroladamente e já era tarde demais. O animal tinha fugido amedrontado, com a certeza de nunca mais voltar. E Julião ficou ali, inerte, apenas piscando os olhos, pensativo... Imaginando o que pudera ter acontecido. Nesse instante sua madrinha Edinete gritou, chamando-o para lhe presentear e no impulso da felicidade correu a caminho de sua casa.
domingo, 14 de agosto de 2011
O NASCIMENTO DA ARTE (UMA LENDA)
O Nascimento da Arte (uma lenda)
Texto: Emerson Gomes
Um dia Deus em seu processo de criação, depois que tudo estava pronto, todas as plantas, todas as montanhas, lagos, mares e animais , Ele resolveu presentear o ser humano com algo muito especial, o poder da palavra e a partir de então o verbo habitou em nós.
Mesmo com essa potencialidade de verbalizar e se comunicar, Deus percebeu que o mundo precisava de algo que pudesse tornar as pessoas mais humanas, mais sensíveis e inventou a Arte. Mas Deus se perguntava:
- Arte pra quê, para quem fazer, qual o seu propósito?
E decidiu.
- Como a minha imagem e semelhança têm o poder de pensar e verbalizar suas idéias, suas emoções, vou presenteá-los novamente com algo muito especial.
E enviou-lhe a Arte. E como numa explosão de cores, sons, gestos, sensações, a arte explodiu no céu, promovendo uma chuva de maravilhas. E quem assistiu a tudo não entendia, apenas sentia algo estranho, que os deixava numa sensação de êxtase. Assim a arte chegava e arrebatava as pessoas.
Mas, era preciso que a arte se concretizasse, que alguém, a experimentasse e promovesse um arrebol de sensações. E assim o fez, criou os artistas com suas modalidades específicas. E assim nascia o teatro, a música, a dança, a pintura, a arquitetura, a literatura... E elas foram se intensificando, se movimentando e transformando o trivial em excepcional, em algo imaginável.
E num belo dia de sexta-feira, onde aqueles artistas se reuniam para intercambiar suas idéias, suas emoções, suas fantasias, Deus soprou nos seus ouvidos como em harmonia e um grande espetáculo surgiu. E como numa sinfonia de felicidades, as pessoas saiam de suas casas hipnotizadas por aquela sinfonia que ecoava ao longe, mas que arrebatava. E as pessoas iam se aproximando, os artistas em êxtase se apresentando para celebrar o amor, a amizade, a felicidade.
E desse espetáculo, o mundo todo assumia a posição da arte na vida como algo que fortalecia o espírito. E assim, em comunhão, o mundo todo se reunia, celebrando a arte e o amor.
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